HARMONIZAÇÃO ENTRE VINHOS
E COMIDAS
Texto: Luiz Octávio Rabello Barcellos ®
Poucos assuntos na culinária despertam tanta
curiosidade e receio como a harmonização de comidas
e vinhos. É muito usual se escutar o antigo chavão:
“vinhos tintos com carnes, vinhos brancos com peixes”.
Com a formidável expansão dos tipos de vinhos e de
vinícolas em todo o mundo, esta assertiva tem-se tornado
obsoleta. A escolha do vinho correto pode ser uma tarefa mais complicada.
Uma das verdades de hoje em dia é que não há
verdades absolutas neste tema. O que vale mesmo é o gosto
de cada um. A harmonização é muito mais uma
arte do que uma ciência, em que o método chega a uma
conclusão única. Como em todas as artes, há
controvérsias em todos os assuntos. Esta é uma questão
de gosto, como discorreremos mais adiante.
Para fixar algumas premissas básicas, vamos
recordar alguns tópicos com relação às
diferenças entre os principais tipos de vinhos. Os vinhos
brancos são mais simples de analisar do que os vinhos tintos,
destacando-se os aromas silvestres, frutados e vegetais, de acidez
e frescor acentuados, sabores picantes e cores brilhantes, e geralmente
são consumidos mais jovens, enquanto mantêm estas características.
Já os vinhos tintos apresentam mais complexidade, possuindo
aromas e sabores mais ricos e profundos, de identificação
mais complexa. Como em seu processo produtivo os sucos permanecem
em contato com as cascas, sementes, engaços, e também
com a madeira dos barris, eles absorvem novas substâncias
que fornecem elementos químicos, cores, sabores e aromas
distintos. Os taninos são elementos importantes que podem
alterar consideravelmente os seus aromas e sabores primários,
provenientes da uva. Os vinhos rosados tendem a apresentar as características
dos brancos e tintos, em uma simbiose que resulta em um produto
intermediário, com o frescor dos brancos, e alguma complexidade
e corpo dos tintos. A maioria dos rosados são secos e acompanham
muito bem as refeições. Os vinhos doces, sejam brancos
ou tintos, geralmente são produzidos com uvas que foram colhidas
mais tardiamente, com maiores teores de açúcar, e
resultam mais alcoólicos, como ocorre com os vinhos Sauternes
e Tokay.
Muitas vezes sofrem uma interrupção
em sua fermentação, através da adição
de aguardente de uva, o que elimina as leveduras. O que ocorre então
é que o mosto estará bastante doce, devido à
interrupção da transformação dos açúcares
em álcool, e bastante alcoólico devido à adição
de aguardente. Este é o processo produtivo dos vinhos do
Porto, dos Madeiras, etc. Por sua vez, os vinhos espumantes são
produzidos com uvas que são colhidas antecipadamente, menos
maduras, e por conseqüência resultam em vinhos mais ácidos
e picantes. Uma segunda fermentação na garrafa, resultante
da adição nas garrafas de um licor adocicado de uvas
e de leveduras produz gás carbônico, que explode em
borbulhas quando se abrem as garrafas. Estes são vinhos vívidos,
alegres, frescos e muito charmosos, que agrada a todos os paladares.
Com estas características destacadas, podemos analisar a
combinação de comidas e vinhos, em sua mais ampla
gama de variedades.
A prudência deve ser a tônica quando
nos expressarmos sobre o assunto, e a parcimônia a postura
permanente diante de um assunto tão vasto. Aliada às
centenas de variedades de vinhos, está a riqueza de sabores
e aromas de cada um, onde mais de trezentos compostos químicos
estão presentes em cada garrafa e em proporções
diferentes. São centenas de variáveis quando se põe
um vinho na boca. Esta vastidão de informações
traz para o vinho uma curiosidade ímpar, e atualmente o que
se observa é uma expansão mundial no consumo de vinhos
de qualidade, como nunca se viu. São centenas de cursos e
palestras levadas a cabo a cada dia, e a diversidade de assuntos
leva a uma insegurança dos iniciantes e iniciados muito grande,
quando se trata de avaliar sua qualidade e suas características.
Nos itens apresentados a seguir procura-se descrever as combinações
entre comidas e vinhos, seguindo as tradições e costumes
de cada país. Talvez algumas correções pudessem
ser realizadas em alguns casos, mas o objetivo deste texto é
o de apresentar uma visão geral dos costumes, tais como são,
sem críticas ou retificações, e as conclusões
podem ser tiradas particularmente pelo leitor em cada caso. De maneira
geral, uma das mais permanentes dúvidas quando se vai beber
um vinho em um jantar é como combiná-lo com os pratos
a servir. Com a onda atual disseminada em todo o mundo em direção
ao consumo de vinhos, apareceram milhares de produtores com centenas
de vinhos, variações de técnicas e de castas
empregadas. Evidentemente, as coisas se complicaram, pois não
há como conhecer esta miríade de produtos. Mas o bom
senso prevalece, como veremos.
De início, uma boa notícia para todos
– não há regras fixas ou pré-estabelecidas.
O que manda mesmo é o gosto e paladar de cada um. Pode-se
e deve-se experimentar de tudo. Também não existem
regras definidas para o que se deve escolher em primeiro lugar,
se o vinho ou se o prato a apreciar. Depende muito da ocasião.
Se o vinho é especial, então deve-se procurar um prato
específico para harmonizar. Se o contrário ocorrer,
e o prato for o objetivo central, então deve-se escolher
com cuidado o vinho. A regra mais aceita é a de que vinhos
fortes acompanham bem pratos fortes, e vinhos delicados acompanham
pratos delicados, de tal maneira a não se ofuscarem uns aos
outros. O antigo mito dos anos 70, 80 e 90 de que vinhos tintos
são para carnes vermelhas, e vinhos brancos para carnes brancas
está superado. Vinhos brancos geralmente são mais
fáceis de se harmonizar do que os tintos. Isto porque possuem
maior acidez, frescor, aromas frutados e brilhantes. Por isto são
bebidos mais jovens, e não possuem tanta complexidade quanto
os tintos.
No momento da escolha do vinho, deve-se pensar
no molho do prato a ser servido, pois ele é determinante
nesta fase. Se o molho contem alguma parcela de vinho, então
o vinho a ser servido deverá ser o mesmo. Um salmão
ao molho condimentado de vinho tinto deve ser servido com vinho
tinto, apesar de se tratar de um peixe. Um coq au vin também
pede um vinho tinto, apesar de se tratar de uma ave.
O frango é uma carne neutra, e o vinho a
ser servido deverá se harmonizar com o molho e com seus condimentos.
Um frango assado com algum molho de tomate vai muito bem com um
vinho tinto de corpo mediano, como um Borgonha. Um frango ao molho
de trufas e cogumelos pede um vinho tinto mais encorpado, como um
Cabernet Sauvignon, um Barbera, um Carmenére, ou mesmo um
Merlot. Já o frango assado com molho de limão, pede
um vinho branco vivo como um Sauvignon Blanc Sancerre, Pouilly-Fumé
ou Chardonnay.
Os peixes necessariamente não pedem um vinho
branco. Como vimos, um salmão pode ser acompanhado por um
vinho tinto, dependendo do molho. Um bom vinho rosado pode muito
bem ser o parceiro ideal para uma truta assada com amêndoas.
Se o peixe for acompanhado de molho à base de manteiga, deve-se
provar um vinho seco Pinot Grigio ou Chenin Blanc. Um bom conselho
é o de se verificar com antecedência se o vinho não
é muito mais forte do que o peixe. Por sua vez a truta pede
um vinho delicado branco, como um Montrachet ou um Chablis. Um vinho
rosado elegante é ótimo com peixes mais condimentados.
O vinho tinto parece ser uma das grandes unanimidades
quando se trata de acompanhamento de carnes vermelhas. Mas resta
ainda uma pergunta que muitas vezes pode ser um problema: qual vinho
tinto se harmoniza melhor à carne escolhida? Bem, tudo vai
depender da carne e do molho a ser servido. Um belo grelhado com
certeza se dará muito bem com um vinho encorpado, com mais
taninos, como um belo Syrah da Côte-Rôtie ou de Tain
L’Hermitage, um potente Cabernet Sauvignon, um Malbec argentino
de boa estirpe, um Tempranillo espanhol, etc. Uma costeleta assada
ou um filet au poivre podem pedir também um Zinfandel californiano,
ou um dos Syrah descritos acima. Carnes vermelhas mais leves como
a vitela ou cordeiro podem ser bem harmonizadas com um vinho tinto
de corpo mediano, como um Cabernet Sauvignon, Merlot, Carmenére,
Brunello di Montalcino, etc. As massas são uma atração
à parte. Fettuccine com almôndegas e molho de tomates,
ou uma pizza ao molho de tomates pedem um vinho Chianti ou um Zinfandel.
Por outro lado um linguine com frutos do mar pede um vinho Riesling
da Alsácia ou Sauvignon Blanc. Se o caso é um Fettuccine
Alfredo, o parceiro ideal será um Chardonnay.
Por último, devemos considerar a cozinhas
orientais da China, Tailândia, Índia e Japão,
que se espalharam por todo o mundo. Molhos ao curry, molhos de soja,
pratos condimentados com pimentas variadas, e especiarias picantes
são a moda atual. De uma maneira geral, os vinhos brancos
são os mais indicados. Já a cozinha mexicana, tão
condimentada quanto a oriental, se dá muito bem com vinhos
tintos encorpados, como um Rioja, um Syrah, um Malbec ou um Zinfandel.
As sobremesas, via de regra, pedem vinhos doces,
mas aí também existem muitas opções.
Há uma grande quantidade de vinhos a serem indicados para
se acompanhar doces e sobremesas. A maioria deles é proveniente
de uvas colhidas tardiamente, muito doces, e atacadas pelo fungo
Botrytis cinerea. Esta “podridão nobre” produz
na casca das uvas uma porosidade que facilita a evaporação
da água. Como conseqüência, o teor de açúcar
torna-se muito alto, e os vinhos resultantes então são
adocicados, em maior ou menor proporção segundo o
processo adotado. O vinho Sauternes, de Bordeaux, é um dos
mais famosos vinhos doces, assim como o Tokay húngaro, e
o Porto fortificado português. A Alemanha produz alguns vinhos
doces exóticos, como o Eiswein (de uvas congeladas), e o
Trockenbeerenauslese. Outros vinhos adocicados são produzidos
em várias partes do mundo com esta técnica, e as uvas
mais comuns são a Sauvignon Blanc, Riesling, Moscatel (Muscat),
e Gewürztraminer. Estes vinhos adocicados geralmente são
servidos como acompanhamento de tortas de frutas ou nozes, amêndoas
ou avelãs. Uma torta de chocolate, ou outra sobremesa de
chocolate vão muito bem com um vinho do Porto Vintage.
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